sexta-feira, 23 de fevereiro de 2007

Tarde de Chuva - letra

O Cruzeiro do Sul não existe.

Sua presença é apenas a comprovação
de que há beleza na ignorância.
Porque se pudessemos olhar o universo
em toda a sua extensão
não veríamos nada, pois enxergaríamos tudo.

Eu não existo.

Minha vida nesta casa apenas realça
a beleza que há em viver com as mãos vazias.
Mas se eu pudesse ter tudo o que eu desejo
a nada eu possuiria; prefiro
a bela ignorância, que se pode ter sem querer.

terça-feira, 13 de fevereiro de 2007

Mestre Duarte - biografia

Impossível saber sua origem, pois seus documentos perderam-se em uma enchente no Méier, em 1968. Entregue ao alcoolismo, depende da filha para viver, no Rio de Janeiro.

Tomás Quintanilha - biografia

O único nascido em Quiririm, sempre quis ser pianista. Hoje é dentista em Belo Horizonte.

Solerte Renascença - biografia

Nasceu em Soure, Ilha do Marajó. Veio com o pai trabalhar nas lavouras de café do Vale do Paraíba. Seu paradeiro é atualmente desconhecido.

quinta-feira, 8 de fevereiro de 2007

Adaílto Salomão - biografia

Nascido em Vacaria, foi o último integrante do quarteto, por isso ficou com a bateria. Atualmente é mecânico de automóveis em São José dos Campos.

Essa biografia será revista frequentemente, conforme novos dados sejam obtidos.

terça-feira, 6 de fevereiro de 2007

Os Olhos da Menina Quando Ele Disse Não - comentada

Tomás Quintanilha: Essa escrevemos ao vivo, no Fordúncio do João, lá em Quiririm. Estávamos improvisando no final de "Espiral de Minutos" quando Mestre Duarte apareceu com o tema que, depois, acabei utilizando para o piano.

Mestre Duarte: Não foi intencional. Apareceu o tema e, depois, foram aparecendo outros elementos que adicionamos à música...

Tomás Quintanilha: O problema foi se lembrar de tudo, no dia seguinte...

Greg Manouva: Vocês ensaiavam todos os dias, inclusive depois dos shows?

Adaílto Salomão: Bom, Quiririm não é uma cidade muito ativa... naquela época, então...

Mestre Duarte: O Q=MC era tudo o que tínhamos para fazer, além de trabalhar...

Tomás Quintanilha: No dia seguinte ao show, eu despertei com a melodia na cabeça. Quando nos encontramos, depois do almoço, pedi à todos que se lembrassem de tudo o que havíamos tocado no final de "Espiral de Minutos". Fomos recuperando aos poucos, e cada trecho que recordávamos era celebrado com muita cerveja...

Mestre Duarte: É claro que não foi uma boa idéia essa celebração. No meio da tarde, já estávamos quase bêbados... e com pouca memória!

Adaílto Salomão: Mas muito do que tocamos no palco do Fordúncio do João está na gravação de "Os Olhos da Menina Quando Ele Disse Não".

Tomás Quintanilha: Um outro problema foi quando nos mudamos para o Rio. Nós não gravávamos os ensaios nem os shows, era tudo muito difícil. Por isso, quando entramos no estúdio pela primeira vez, quisemos gravar direto essa música, porque ela não foi composta racionalmente, ela foi fruto de um momento que estava apenas na nossa memória...

Mestre Duarte: E, com todas as preocupações que tínhamos naquela época, muito do que conseguimos nos lembrar em Quiririm se perdeu no Rio...

Tomás Quintanilha: ...de forma que a versão gravada também perdeu elementos que havíamos descoberto no palco do Fordúncio do João...

Adaílto Salomão: Podemos dizer que a versão original era muito superior à versão que acabamos tornando oficial. Mas o original, só quem estava no Fordúncio ouviu...

Mestre Duarte: E duvido que haja alguém que se lembre dela...

Tomás Quintanilha: Viver é perder algo, sempre.

Greg Manouva: E a letra?

Tomás Quintanilha: Foi escrita no Rio, em circunstâncias muito pessoais. Éramos fãs de duas cantoras: Elis Regina e Nara Leão. Imaginávamos que poderíamos convencer uma das duas a cantá-la. Então, escrevi a letra numa levada só, depois que o Adaílto contou a história que inspirou a letra (consulte o post abaixo). Tentamos levar a fita pronta para os empresários das duas cantoras, mas o esforço era demais: não conhecíamos ninguém que poderia nos ajudar, e nos shows, era imensamente difícil entrar nos camarins. Desistimos de tentar as duas, e como nenhum de nós cantava, a letra ficou solta. Pelo menos, agora quem ouvir a música e ler a letra poderá imaginar a melodia que tínhamos composto, na voz da Elis ou da Nara Leão... ou então, escrever a sua própria melodia!

domingo, 4 de fevereiro de 2007

Os Olhos da Menina Quando Ele Disse Não - letra

"Caro Greg,

muito obrigado pelo seu trabalho. Vi a página no MySpace, mas ainda não vi a página na TramaVirtual. Infelizmente, terei de negar seu pedido: além de não termos mesmo fotos daquela época, não acredito que seja uma boa idéia nos deixarmos se fotografar agora. Não seria justo com o Solerte, visto que não é possível encontrá-lo. E também não seria justo conosco... afinal, não se pode dizer que o tempo foi bondoso com cada um de nós.

De qualquer forma, estive remexendo em uns papéis antigos e encontrei algo que pode te interessar. Estávamos no Rio, em 1965, quando uma francesa se apaixonou perdidamente pelo Adaílto Salomão. A questão é que o romance era impossível, e o Adaíto entendeu isso de cara - porém a francesa, não. Talvez porque ela estivesse de passagem, e nem português falasse.

O último encontro dos dois (uma pena que não consiga me lembrar do nome dela, talvez o Adaílto possa lhe dizer) inspirou a letra de "Os Olhos da Menina Quando Ele Disse Não".

Estávamos trabalhando nos arranjos da música quando o Adaílto chegou ao estúdio, depois do último encontro com a francesa. Ele estava impressionado com os olhos dela - eram negros, brilhantes, e pareciam dois redemoinhos de onde irradiavam toda a tristeza, ele nos disse.

Bom, esse é o contexto. Claro que nunca chegamos a gravar a música com a letra, afinal nenhum de nós cantava e ninguém quis interpretá-la também. Mas fica o registro.

Os Olhos da Menina Quando Ele Disse Não

e quando ela se aproximou
e viu o céu nublado em seus olhos
disse: "Quero ficar com você"
mas ele falou, "Você não merece isso
porque me conheceu na felicidade"
e ela respondeu, "Deixe-me então
te conhecer na tristeza"
e ele ficou a observá-la,
e ela se aproximou, e tomou seu
rosto entre as mãos, quieta
sem se perturbar enquanto os trovões
dilaceravam seu rosto, fechou os olhos
e esperou o beijo que tanto quis,
mas sem abrir seus olhos viu que suas mãos
ficaram vazias, e então sentiu a tempestade
cravar em seu rosto enquanto ele ia embora.

Obrigado por tudo,

Tomás Q."

sábado, 3 de fevereiro de 2007

Tarde de Chuva - comentada

Tomás Quintanilha: "Tarde de Chuva" foi concebida para ser um monumento ao tédio. Estávamos no Rio e não tínhamos dinheiro algum, portanto, não tínhamos nada para fazer. Sentei-me ao piano e a melodia principal saiu.

Adaílto Salomão: Foi muito difícil arrumar uma batida que combinasse com a levada do piano. Ficávamos eu e Solerte tentando encontrar uma solução, mas não encontrávamos nada...

Tomás Quintanilha: Era o tédio alimentando a si mesmo... foi a única que não conseguimos compor na improvisação...

Mestre Duarte: "Tarde de Chuva" foi a música mais demorada para gravar. Geralmente, era um dia, às vezes menos, para tocar, gravar e pronto: estava pronta uma música. "Tarde de Chuva" nos consumiu dias e dias...

Tomás Quintanilha: Não que fôssemos uns largados: é que não tínhamos mesmo dinheiro para pagar muitas horas de estúdio...

Adaílto Salomão: Nesse sentido, "Tarde de Chuva" é a música mais cara do nosso repertório...

Greg Manouva: Fica a impressão de que não houve consenso quanto ao final da música...

Tomás Quintanilha: As horas iam se passando, e não encontrávamos uma solução melódica para juntar o corpo da música com a melodia principal. Então, depois de muitas tentativas, apareceu a faxineira do estúdio, com um aspirador de pó, para começar a limpeza. Infelizmente, ou felizmente, ela não se importou muito com o fato de haver músicos ainda gravando, e ligou o aspirador. Ouvimos aquilo e achamos que seria, no mínimo, diferente usá-lo...

Adaílto Salomão: Ainda não estou certo se foi a melhor escolha... ou se foi a opção que podíamos pagar...

Mestre Duarte: Me lembro que o Solerte ficou bravo pra xuxu...

Tomás Quintanilha: De qualquer forma, "Tarde de Chuva" ainda me passa a impressão de ser uma forma do tédio nascido da pobreza...

Ouça o Q=MC

As duas primeiras músicas digitalizadas do Q=MC já estão disponíveis para audição. Basta clicar aqui e escolher entre "Os Olhos da Menina Quando Ele Disse Não" e "Tarde de Chuva". Ou, simplesmente, não clique em link algum.

É possível baixar os arquivos diretamente ao seu computador e, como não existem copyrights para o Q=MC, fique à vontade para distribui-los por aí ou simplesmente, deletá-los.

Qualquer que seja sua escolha, o Q=MC ficará feliz de saber que, mesmo 40 anos depois, ainda há alguém querendo ouvir seu trabalho.

O Fordúncio do João

O que é sucesso - reconhecimento das multidões ou satisfação pessoal com o trabalho realizado? Muitos ou apenas um (você)? Talvez o sucesso seja fazer o que se quer sem se preocupar com o próprio sucesso. Afinal, sucesso vem da mesma raiz que sucessão: tudo passará, inclusive você, e só a obra de arte fica. Então, para quê se preocupar com isso?

Posso estar confundindo sucesso com fama, da mesma maneira que se confunde hoje ambição com ganância. De qualquer forma, houve uma época em que houve pessoas que não se preocupavam com nada disso. Essa época era os anos 60, e as pessoas eram os que formavam o Quiririm Musical Clube.

Eles tocavam no Fordúncio do João. Se você não conhece Quiririm, não tem como imaginar a importância do Fordúncio na história musical da cidade. Se você conhece Quiririm, bom, então você deve estar rindo sozinho.

Primeiro: no Fordúncio não havia palco. E não era por pobreza não: a idéia é que o público está no mesmo nível do artista, pois sem audiência não há obra de arte. Faz sentido, mas aí voltamos para o primeiro parágrafo - e eu não quero falar disso agora.

A questão é que tocar na mesma altitude que o público trazia uma interatividade sem igual entre músicos e platéia. Todos podiam dançar e intervir na música - seja por um esbarrão fortuito, seja por achar que uma determinada nota cairia melhor do que aquela escolhida pelo próprio músico. Foi no Fordúncio do João que o quarteto erigiu seu repertório, que breve estará disponível neste blog.Hoje, as pessoas apenas comem em seu interior, já que o Fordúncio do João não existe mais - é um restaurante. Sequer imaginam que namoros e separações, sorrisos e lágrimas surgiram e caíram embalados pelas notas - a princípio cambaleantes, depois firmes e determinadas - encadeadas pelo Q=MC.

De qualquer forma, com um pouco de sorte é possível encontrar alguém que ainda se lembre de ter dançado ao som daqueles músicos ímpares. A questão é que pouco ele falará sobre a música do quarteto - e sim discorrerá sobre os acontecimentos em sua vida, pois o quarteto era uma espécie de veia por onde corria o sangue do destino de todos que frequentavam o Fordúncio do João.

E quando se consegue isso, para quê se importar com sucesso e fama?